Crônicas de um Homem Morto

07 maio 2012

Bálsamos - Parte XXXVI


Um dia difícil pode ser qualquer um,
com mil compromissos ou uma topada,
ou indiferença ou sem gargalhada,
Ou contentar-se com algum ou nenhum.

Uma pedra pode causar uma mudança
Sem duvidar se estava no caminho.
É um risco inerente sairmos do ninho,
Mudança não é o objetivo da andança?

Bálsamos tornam-se tudo que ofusca.
Uma pausa, um objeto, um suspiro.
Sem eles, pensamos: "eu me viro",
nos viramos, de fato, à sua busca.


11 março 2012

A dona do vestido - Parte XXXV

Era inegável que, em qualquer outra pessoa, aquele vestido seria tão comum quanto um pão no café-da-manhã. O roçar nos joelhos da bainha ou as alças que pouco cobriam os seus ombros - nada disso era diferente do que podemos ver além da porta de entrada do restaurante semivazio e completamente decadente no qual estávamos.

Porém, as passadas do vestido tinham espectadores, embora não se possa dizer o mesmo para a sua dona em relação ao caminho por ela percorrido. Não fosse a destreza do garçom, o leve amarelo que dominava a sua vestimenta ganharia alguns tons de café.

Sem ligar para o desespero do garçom, tomou para si uma mesa onde havia ainda mais cinco lugares. E em poucos minutos, quatro deles foram preenchidos. Aos cumprimentos, seguiram-se o que eu posso julgar de elogios, sempre acompanhados de um leve sorriso e uma arrumada na mecha que pendia sobre o seu olho esquerdo.

A conversa era animada, com sorrisos, risadas e gestos a pontuá-la. Mas a dona do vestido não parecia conectar em nenhum momento. Quando ouvinte, levava a bebida à boca, como se estivesse procurando distração. Os olhos por vezes ganhavam o infinito, decerto acompanhando a sua imaginação. Nas raras vezes que falava, era através de fases curtas, onde logo era interrompida.  Quase sempre era o membro do grupo que falava mais alto e que não me pareceu ter muita educação.

Enquanto chamava o garçom para dar fim à minha presença ali, a dona do vestido levantou. Procurando a janela, a alcançou com um telefone na mão. Assim, rapidamente, já em frases que pareciam bem mais animadas, falou rapidamente e se voltou ao seu lugar. Em alguns minutos, o lugar ao seu lado seria ocupado.

Ela começou a falar. E voltou a sorrir.

06 fevereiro 2012

As preces - Parte XXXIV

Lembrei-me da época em que eu tinha semelhantes.

Havia um sujeito cuja camisa estava sempre em desalinho com quaisquer normas de elegância. Sobrava pano e as cores há muito haviam perdido o seu tom de fábrica. Aquele suor excessivo, que chegava a afastar a maioria dos membros do sexo oposto, deveria obrigar o dono a muitas lavagens com mais rigor do que o normal.

Porém, o que me chamava a atenção era a devoção àquele velho relógio branco de algarismos romanos com os ponteiros finos e negros que ficava na mesma parede da porta principal de nossa sala, bem em frente às janelas para a rua.

Quando desviava a atenção ao relógio, o sujeito parecia olhar para um altar religioso. Eu o imaginava direcionando preces, rogando votos, suplicando que, sei lá!, o Deus-Tempo interferisse nas horas e as fizesse ganhar velocidade.

Entretanto, a passividade do seu Deus parecia aumentar o fervor. A fé nunca lhe faltava. Com o avançar do tempo, a expressão tomava quase ares de desespero, o relógio tornava-se o seu fiapo de esperança, como se o sujeito se declarasse derrotado diante de todos os seus afazeres e só restassem as suas orações para sobreviver àquele infortúnio.

Era nesse momento que ele mordia o lápis com mais força a ponto de sentir o gosto amargo da madeira a invadir-lhe a garganta. Era o sinal para eu ir tomar um café com os outros.

E eu odeio café.

30 janeiro 2012

Apenas seguindo em frente - Parte XXXIII

Na maior parte das vezes, os sentidos são tão limitados quanto a visão: o seu raio de ação é reto, sem variações, sem surpresas.

É esse o carvão da mediocridade que alimenta a locomotiva que, claro!, só vai para frente, seguindo o caminho dos trilhos.

Sair dos trilhos é acidente.

Deixar de olhar apenas para frente é acidente.

Acidentes devem ser evitados.

29 outubro 2011

A Moral da História - Parte XXXII

Existe algo esquisito que vocês chamam de honra. De fora, a única noção que eu tenho é de algo subjetivo. Seria uma espécie de cobertura, que varia de pessoa para pessoa e que define limites sobre quem se é.

Assim, se é subjetivo, como lidar com as pessoas? Como interpretar os limites de cada um? Age-se como se todos tivessem uma? Ou ignoramos a sua existência e partimos do princípio que todos têm um preço?

E em todas as vezes que ouvi a palavra honra, havia sempre uma menção a "preço". Assim, parece-me que existe um nível onde a honra é atacada e um valor para que se possa comprá-la; definimos, então, uma espécie de faixa onde a consciência (e a honra não seria uma consequência desta?) impede que os homens ultrapassem o seu limite.

Ora, se todos os homens em estado normal estão dentro desta "faixa", se é a consciência que os mantêm assim - embora o ato de transpô-la também seja um ato racional - e se também é a consciência que define a honra de cada um; como falar que alguém tem honra ou se acreditar honrado?

Há de se supor, então, que exista um outro nível que distingua as pessoas, que as façam crer que são diferentes.

Um dia eu vou entender a moral dessa história.

13 julho 2011

Linhas - Parte XXXI

Uma linha à frente pode ter vários significados, a depender da posição do referencial e, principalmente, da forma pela qual este a interpreta.

Assim, uma linha pode ser um objetivo a ser trespassado, assumindo, então, que é aquele lugar que se quer atingir e ultrapassar. Pode, ser, também, um limite, estabelecendo uma divisão.

E, por último, uma linha pode ser imaginária. Aliás, qualquer linha - seja ela um objetivo ou um limite - é fruto de nossos pensamentos. Hemisférios e trópicos não existem, países não são reais. Se assim é, por que, então, as outras hão de ser?

Não são.

02 junho 2011

Acertando as contas com o passado - Parte XXX

Eu parei por um momento e me lembrei como era o passado. Ele era certo. Bem, certo e cinza.

Eu pensei em tudo o que eu fazia e no que me dava, de certa forma, prazer. Eu me lembrei dos computadores e das pessoas, e das pessoas e dos computadores. Dos telefones. Das ruas cheias. 

Assim, eu tentava me lembrar da definição de prazer. Foi difícil achar qual sorriso era real. E se eu fosse estabelecer uma relação entre o prazer e todo o resto, o que eu obteria? E se eu, à época, chegasse a esse cálculo, ele não seria afetado?

Aí, eu comparei com o que tenho hoje. Não há diferença. Quer dizer, há: eu sei fazer contas.

18 maio 2011

Confronto com o Espelho - Parte XIX

Parado, contemplando-o, há duas imagens que brigam entre si. Não são opostas - por vezes, acredita-se que não são iguais. E, assim sendo, há a ilusão que é possível mudar o vencedor. Não, não há. Ele sempre será o mesmo, não importa a ajuda que apareça.

E deixando este tipo de imagem de lado, a mudança de ambiente favorece o mesmo tipo de belicismo - só que quase sempre não-visual.

A mente leva ao conflito; o contraditório, à guerra. E a paz só pode levar à loucura.

13 maio 2011

Indo às Compras - Parte XXVIII

As escolhas somos nós. E se nós escolhemos mal, isso deve significar alguma coisa.

Ora, há sempre a chance de terceirizar a culpa. Com isso, some uma respiração mais profunda à equação e a próxima será de alívio.

É simples, muito simples.

Resta saber se é mais simples do que evitar escolher o que te oferecem.

O passado diz que não, a experiência só fala no que seria melhor.

E o carrinho cada vez mais cheio. E caro. E pesado. E ele é seu.

27 abril 2011

Pontos - Parte XXVII

Pontos, ao se separarem, criam uma reta imaginária. Esta poderá continuar a existir pela influência dos pontos. Aliás, o próprio formato da reta (ou se ela será uma) é decidido pelas extremidades.

Se pontilhado, tracejado ou, simplesmente, uma reta; vai depender do que aconteceu antes. E de como se convive com a reta.

Bem, afinal, eles sempre podem se tornar apenas pontos.

21 abril 2011

Assimilando - Parte XXVI

Cansado, sem motivos para sorrir.
E ser menos um é agonia?
Pausas servem para refletir
ou a reafirmar a monotomia?

De longe, apenas nos observamos.
A mente pode te tornar intangível
Se é o futuro que almejamos,
torne o presente possível

E, assim, há a crítica arrogante.
Talvez de alguém nem tão distante,
que acredita que, em um rompante,
Pode julgar a todos em um instante

A diferença está em escrever.
Sem hesitar, eu posso descrever
ações e visões que, para a maioria,
não passariam de harmonia

E aí está a grande ironia.
Para eles, reta. Para mim, curva.
E se há divergência no que seria,
a causa é apenas uma lente turva.

28 março 2011

Próxima Parada - Parte XXV

Eles não olham para os lados, há muita coisa ao longe para distrai-los. Assim, a minha viagem torna-se solitária.

O silêncio não é o repouso de corpos cansados, muito menos a reflexão de uma mente preocupada. As pálpebras pesam, o ângulo do olhar que dá de encontro ao chão; tudo isso é sintoma de caso avançado de sobrevivência.

Saltei.

27 março 2011

Delírios na Biblioteca - Parte XXIV

Aqui, na biblioteca, as páginas amontoam-se esmagadas por capas e estantes. Lá fora, é a mesma coisa, desta vez com roupas.

Entretanto, aqui eu posso fazer a minha escolha em um ambiente mais organizado. Embora aqui também existam as regras de ocasião, ao menos o tempo tratou de conservar aqueles que ninguém quis, cujo conteúdo é ignorado pela maioria. Para eles, o fim da fila, a fileira mais alta da estante, a camada mais grossa de poeira.

Bem, ao menos eu sei onde devo procurar. Lá fora é muito chato.

12 março 2011

Os meus devaneios - Parte XXIII

Eu não sonho. Deito-me e só me vem à cabeça a completa escuridão.

Porém, se tivesse que escolher, ficaria com os meus devaneios. Pequenas conversas cinematográficas que travo com o meu eu. Elas me são muito mais úteis que horas de ação onde eu não tenho o controle.

E, assim, concluo que, por mais que algumas vezes soe como o contrário, ideias não são crimes. E crimes também não são ideias, mas nada senão reações. E se assim são, não são dignas de atenção, pois, ora, são frutos originais de outrem.

Por mais que sejamos cópias, eu não preciso adorar os meus semelhantes e os seus métodos. Quando a quantidade é um fim em si mesma, há algo errado.

- Bom dia.

01 março 2011

A casa da Justiça - Parte XXII

Ela é individual,
influenciável,
algumas diferentes,
mas sempre abominável.

Por vezes,
terceiriza.
Assim, sorri
E agoniza

Quando não é,
fica isolada.
Ou é seguida
ou amaldiçoada.

É muito mais fácil
do lado de fora.
Um véu, um perfume:
o lucro vem na hora.

Alguns convivem
com esse dilema.
E se assim vivem,
então, não há problema