Crônicas de um Homem Morto

23 julho 2010

A Verdade - Parte XIII

Ela estava sentada em um banco do shopping. O redor dos seus olhos estava bem vermelho e a caixa de lenços ainda estava para fora na bolsa entreaberta. Estava claro que ela havia passado um bom tempo chorando.

Sentei-me ao seu lado, ela suspirou, como se aquela cena já fosse comum e, sem a menor paciência, lançou-me as seguintes palavras:

- O que você quer?

Seria difícil explicar que eu não queria nada. Mas, na verdade, ignorá-la naquele estado seria ainda mais complicado. Quando não sabemos o que fazer, é sinal de que não saberemos mentir. É melhor dizer a verdade:

- Simplesmente vi que você estava chorando e resolvi sentar ao seu lado.

- Mas eu já parei de chorar. Então, você já pode ir embora.

- Bem, mas você não está certa disso, pois teria guardado a caixa de lenços e ido passear bem longe daqui.

- (...)

- Vamos lá, o que houve?

- Ele foi grosso comigo. Precisava dizer que eu sou uma chata e que não me aguentava mais me ver? Ele é que é chato e insuportável!

- Todas as pessoas são insuportáveis, minha querida. As que não são, são apenas covardes ou falsas.

Enquanto ela virava-se para alcançar a caixa de lenços, eu achei melhor seguir o meu caminho.

04 julho 2010

O Sofá e o Controle Remoto - Parte XII

O sofá e o controle remoto são o trono e o cetro do homem moderno. Todo o resto é supérfluo.

Se as relações com os demais seres humanos não nos importam, então, não precisamos de mais ninguém, apenas do controle remoto, para, à nossa maneira, controlar a nossa televisão, que é, na verdade, onde as relações acontecem.

01 julho 2010

Leis Básicas da Convivência em Sociedade - Parte XI

- Olá!

- (...) Olá.

- Pode parecer estranho eu cumprimentá-la, mas, talvez, parecer um sujeito educado e simpático pudesse transformar a minha existência em algo menos miserável, concorda?

- Er...eu não sei o que dizer...

- Não me surpreende. Bem, se você não sabe o que dizer, é sinal de que a peguei de surpresa, certo? E, se você foi surpreendida, indica que você não espera que as pessoas cheguem até você e digam um simples "olá", certo?

(Nesse momento, ele dá um longo passo à frente e ela, com as pernas menores, um curto para trás).

- Er...gulp!

- (tom de voz mais estridente) Então, você calça essa porcaria de tênis todos os dias e ganha as ruas esperando que todos te ignorem, já que o seu único objetivo é desprezar todos que passem por você, exceto, claro!, que algum deles tenha alguma serventia para você. Não é isso, senhorita-da-calça-colorida?

- (os ombros encolhem-se) Não...

- Provavelmente, você está pensando em todos os pés indesculpados que pisou, as ocasiões que um "obrigado" ficou preso na garganta, os olhares não retribuídos...

- (as sobrancelhas encurtam a testa) Não...

- Negação, negação, negação. Você está certa.

- (...)

Ele se afasta e ao longe ela ainda é capaz de ouvir um “Olá!”.

01 julho 2008

Lição de Moral a um Matador de Aula - Parte X

- Sente-se aí, meu filho.

- Você deve ter uns 10 anos a mais do que eu. Corta esse papo.

- Nós somos mentirosos. A diferença é que eu sei parar.

- Como assim, mentiroso? Você me conheceu agora, como pode estar tão certo disso?

- Vai sentar ou não? São dez horas da manhã. Com essa blusa amarrotada, quer dizer que você já saiu de casa faz tempo e, a essa hora, deveria estar sentado em outro lugar, não nessa cadeira confortável do shopping que você finalmente faz uso.

- ???

- Sim. E é mentiroso pois vai mentir ou já mentiu para alguém. E o ar natural com o qual você veio até aqui não é coisa de amador. Uma limonada suíça sem açucar, por favor.

- ???

- E essa calça poída nos joelhos não combina em nada com os tênis caros dos seus pés. Alguém aqui não toma cuidado.

- ???

- Me passe o caderno de empregos, por favor.

26 abril 2008

Conversa com um Vizinho - Parte IX

Tão perto e tão longe. As camisas parecidas, todas sem listras, revelam um padrão. E, lógico, uma preocupação.
Não se pode jogar tudo na conta da coincidência.

Vamos, então, ao confronto:

- Oi.

(silêncio)

Só, então, percebo os fones. E ele, a minha presença.

Desconfiado, percebe que houve uma tentativa de diálogo. Sem-graça, mexe na camisa e diz:

- Falou comigo?

- Sim, falei. Apenas um "oi!"

- Oi.

Não preciso de mais nada. Entendi tudo. Ou melhor, eu havia entendido tudo errado. O que é liso, é chato, sem vida. Assim, fica fácil ignorar.

E, com isso, não é necessário se preocupar.

A vida é muito mais simples assim.

- Boa noite.

- (...)

Carta de Amor Mal-Escrita - Parte VIII

Desculpe-me, foi um engano
Na verdade, eu confundi as coisas
Não, isso não acontece todo ano

Eu vejo, conheço e enlouqueço
É sempre assim
E quando dou por mim,
Esqueço

Já procurei um remédio
E todos os médicos me disseram:
"Isso é tédio!"

Tédio? Não deve e não pode ser
Você quer me dizer
Que a causa de tudo é
Viver?

10 junho 2007

Compartilhando a Calçada - Parte VII

Lugares públicos são de todos. Como no equilíbrio de Nash - "se todos aceitam, é porque cada um aceita" -, a calçada, obviamente, não é propriedade privada. Entretanto, eu me comporto como se caminhasse ao som de "Final Countdown" e encontrasse um Luke Skywalker em cada esquina.

Aprendi uma coisa hoje: o concreto é quase beligerante. Para a ação, falta o ingrediente final: pessoas.

Há uma via e não há pessoas normais.
Há uma regra e não há policiais.
Há uma norma e não há quem a aplique mais.

E os tambores?

17 maio 2007

Com os Amigos no Bar - Parte VI

Agonia. Olho impacientemente o relógio e descubro que estou aqui há 48 minutos. Vou me orgulhar disso mais tarde. 48 minutos e não formulei três frases seguidas.

Na verdade, formulei vários tratados. Entretanto, caso tivesse pronunciado qualquer parte deles, teria a minha vida social totalmente comprometida. Esbocei um sorriso e tomei o caminho do banheiro entre sorrisos amarelos de gente que não se importava se eu estivesse aqui ou lá.

O espelho denuncia o meu horror. E a teoria do mínimo denominador comum aplicada aos seres humanos o explica.

E a fila do banheiro não pára de crescer.

19 dezembro 2006

A Fila - Parte V

A fila enganava a todos. Olhando-a, podia-se perfeitamente acreditar que a nossa estada ali seria realmente maior do que o indicado pela quantidade de pessoas à frente.

Ao atentar para um olhar vago, perdido em focos inconstantes e confusos, como se pedisse para ser ignorado, rapidamente pude perceber o quanto a fila não é homogênea, como, na verdade, ela deveria ser.

Os excessos que levaram o olhar a querer camuflar-se dentre as luzes foram em vão. Ou melhor, completamente desnecessários. Mesmo sabendo que deveriam ser tratados como párias, foram covardemente tratados como iguais.

Desisti. Larguei tudo que ainda não era meu e fui embora. Não posso ser o pária dos párias.

12 dezembro 2006

O Engano - Parte IV

Recebi um telefonema. Normalmente, eu não recebo telefonemas. Aliás, eu não atendo telefones, mas, dessa vez, eu abri uma exceção.

Não houve perguntas ou questionamentos. Havia, sim, uma certeza absoluta de que estava sendo feita a coisa certa. Ou seja, a mensagem estava chegando a quem deveria ser o seu destinatário.

Por um momento, cheguei a pensar em interrompê-lo. "Ei, espere, não é a mim que você deve falar essas coisas. Está havendo um engano". Seria besteira. Do outro lado não havia nenhuma preocupação com o que acontecia desse lado. Existia apenas a necessidade de se passar algo adiante.

Ora, quando se quer extravasar, pouco importa quem esteja ouvindo. Na verdade, você até imagina que há uma outra pessoa a lhe conceder atenção. Sendo mais realista ainda, acreditamos que é uma espécie de cópia de nós a ouvir todos os nossos lamentos e expectativas.

Ok. Pelo tom, o que era dito tinha realmente importância. Tanta importância que ele nem reparou nos números discados.

03 dezembro 2006

(Esperando no) Elevador - Parte III

- Desce?
- Não, sobe.
- Ok, não vou esperar outro mesmo.

Um elevador é, certamente, um dos piores lugares da terra em que você entra espontaneamente. É terrível a agonia de olhar para o marcador de andares, torcendo para que aquele indivíduo que está ao seu lado não comece com nenhum papo de chuva ou sobre a maldita reunião condominial que ninguém dá a mínima.

Na verdade, ninguém se importa com nada que é discutido em um elevador. Falando sério, nada que seja discutido em um condomínio é de importância, apenas que queremos dar o nosso dinheiro ao síndico e torcer para que ele seja o menos corrupto possível.

Leia-se: roube sem a gente perceber.

E aqui estou, no elevador. Ao meu lado alguém que nunca vi na vida, com barba de um dia, chinelo, sem aliança e o jornal recém-apanhado na portaria.

Isso às duas horas da tarde de um terça-feira.

Desconfio que ele esteja morto. Tenho certeza que ele acha que não.

25 novembro 2006

Crônica de um morto - parte II

Eu ainda estou morto, você não. Apesar disso, a minha fila diminui, agora sim, como a sua. Assim que chegar a minha vez, terei um resquício de vida, por mais estranho que isso possa parecer.

A sua vez não chegou, a minha sim. Subitamente, a cor volta ao meu corpo. Sou avisado que, pelos meus antecendentes, tenho mais cinco meses de vida. Agradeci, desejei boa sorte a todos e fui embora olhando o relógio, estranhando essa história de "cinco meses de vida".

O calendário não mente e não dá trégua. Estou em uma encruzilhada: agarro-me, desesperado, ao fiapo de esperança a mim oferecido ou, corajosamente, rejeito-o, atrás de uma nova vida, mesmo que, momentaneamente, indigna?

É assim que eu levanto-me, é assim que eu me deito. Pela manhã, decerto, encontram-se os piores minutos do dia. Dez, para ser mais preciso. Do exato momento em que deixo a cama até a saída do banheiro.

Só há uma coisa que supere a agonia dos momentos que precedem o cruel encontro diário com o espelho: o horror ao perceber, dia após dia, que a cor que vemos não nos pertence.

O horror, o horror...

Crônica de um morto - parte I

Eu estou morto. Você não está. Pode parecer meio óbvio, mas é sempre bom lembrar que, às vezes, o que está na nossa cara, pode estar um pouco acima dela.

Não lembro como morri. Talvez tenha sido imprudência, pois, afinal, relacionar-se com os outras pessoas não deixa de ser um reconhecimento de que somos descuidados e fracos. Que necessitamos de um simples sinal.

Se eu tivesse ficado em casa, rabiscando uma folha com uma caneta, sentado ao chão, nada teria me acontecido.

Nada!

Quantas vezes eu contei em uma árvore morta o que me fazia sair de casa todos os dias? Rabisquei fórmulas em que tentava equacionar os prós e contras de ter que dar bom dia para o porteiro e ganhar o asfalto?

Nunca soube a diferença entre meia-noite e meio-dia, ou entre as seis horas da tarde e as nove da manhã. Talvez, agora, eu entenda.

De certa forma, hoje, consegui o que eu queria: estou morto. Eu e algumas dezenas de pessoas, alinhadas de frente para uma outra, atrás de um pedaço de vidro.

A minha vez chegará. Então, poderei, enfim, contar a minha crônica.