Crônicas de um Homem Morto

28 março 2011

Próxima Parada - Parte XXV

Eles não olham para os lados, há muita coisa ao longe para distrai-los. Assim, a minha viagem torna-se solitária.

O silêncio não é o repouso de corpos cansados, muito menos a reflexão de uma mente preocupada. As pálpebras pesam, o ângulo do olhar que dá de encontro ao chão; tudo isso é sintoma de caso avançado de sobrevivência.

Saltei.

27 março 2011

Delírios na Biblioteca - Parte XXIV

Aqui, na biblioteca, as páginas amontoam-se esmagadas por capas e estantes. Lá fora, é a mesma coisa, desta vez com roupas.

Entretanto, aqui eu posso fazer a minha escolha em um ambiente mais organizado. Embora aqui também existam as regras de ocasião, ao menos o tempo tratou de conservar aqueles que ninguém quis, cujo conteúdo é ignorado pela maioria. Para eles, o fim da fila, a fileira mais alta da estante, a camada mais grossa de poeira.

Bem, ao menos eu sei onde devo procurar. Lá fora é muito chato.

12 março 2011

Os meus devaneios - Parte XXIII

Eu não sonho. Deito-me e só me vem à cabeça a completa escuridão.

Porém, se tivesse que escolher, ficaria com os meus devaneios. Pequenas conversas cinematográficas que travo com o meu eu. Elas me são muito mais úteis que horas de ação onde eu não tenho o controle.

E, assim, concluo que, por mais que algumas vezes soe como o contrário, ideias não são crimes. E crimes também não são ideias, mas nada senão reações. E se assim são, não são dignas de atenção, pois, ora, são frutos originais de outrem.

Por mais que sejamos cópias, eu não preciso adorar os meus semelhantes e os seus métodos. Quando a quantidade é um fim em si mesma, há algo errado.

- Bom dia.

01 março 2011

A casa da Justiça - Parte XXII

Ela é individual,
influenciável,
algumas diferentes,
mas sempre abominável.

Por vezes,
terceiriza.
Assim, sorri
E agoniza

Quando não é,
fica isolada.
Ou é seguida
ou amaldiçoada.

É muito mais fácil
do lado de fora.
Um véu, um perfume:
o lucro vem na hora.

Alguns convivem
com esse dilema.
E se assim vivem,
então, não há problema

11 fevereiro 2011

O sorriso, as escadas e a escolha - Parte XXI

Eu descia a escada rolante. Despreocupado, procurei um chiclete no bolso da calça já apertada após tantos anos de uso. Nessas horas, ajo como se estivesse diante de uma câmera e faço questão de fazer uma expressão de alguém que não está entendendo o que está acontecendo. No caso, o sumiço do chiclete.

Decerto, foi isso que atraiu o sorriso que veio da escada que subia ao lado. Nesse momento, o chiclete já era alvo secundário e o meu olhar buscou as laterais do meus ombros em busca do possível alvo daquele belo aceno.

Provavelmente, eu queria que os meus olhos estivessem certos. Tanto é que, ao chegar ao meu destino, eu segui nele. Acho que a direção das escadas dizia muita coisa.

08 fevereiro 2011

A carteira e o mundo - Parte XX

- Ao abrir a carteira, eu controlo as decisões. Se serei gentil ou educado, é uma decisão minha, portanto, o papel que eu irei interpretar a partir de agora, terá você como coadjuvante. E eu tenho certeza que você irá colaborar.

- Se é assim...

- E, de certa forma, eu só coloco em palavras o acordo tácito que existe. Mas, pensando bem, não é assim que funciona lá fora? Eu sairei e serei protagonista e coadjuvante, tudo vai depender de quem tiver...

- Vai demorar?

- Ei, já esqueceu o seu papel?

03 fevereiro 2011

Refletindo no Café - Parte XIX

Eu não gosto de café. Para falar a verdade, acredito que muitos aqui também. Eu poderia continuar, mas é melhor parar, obviedades são tediosas quando mostradas todas de uma vez.

Falando em tédio, as bocas forçosamente abertas e os dentes cuidadosamente expostos me cansam. Mas eu sigo apenas a observá-los.

O alívio a cada gole é um comercial sem câmeras. O aroma é percebido como um elixir.

- Droga.

05 janeiro 2011

Primeiro dia no Emprego - Parte XVIII

Eu paro e observo. Atentamente, tento descrever o que são aquelas pessoas atrás de mesas apertadas e olhares preocupados para as suas respectivas telas de computador.

Imagino, então, que daqui a alguns meses, as posições estarão trocadas. Eu estarei sentado e algum outro aparecerá. Provavelmente, no lugar de alguém que eu terei convivido dia após dia, compartilhado emoções, experiências e almoços.

Volto à realidade e pergunto onde eu assino.

31 outubro 2010

Explicando a Vida - Parte XVII

- É simples, minha cara: você vai errar, chorar, achar que está acertando, chorar, ter alguns sorrisos, chorar novamente e então, finalmente, falará para os mais novos que a vida foi boa. Depois, os olhará pela janela e suspirará, enquanto decide se remexe ou não nas velhas fotos escondidas no alto de algum armário.

- Mas...

- Não há mistério. Resta saber apenas se o saudosismo virá cedo ou na hora correta.

08 outubro 2010

A Discussão - Parte XVI

À distância, observava os dois discutindo. Impressionava a maneira pela qual os gestos dele pareciam reger as lágrimas dela. Ele, claro, não se importava. Muito menos eu.

O espetáculo continuava. Todos que passavam não hesitavam em dar uma olhada, alguns condenavam; outros, indignados, expressavam a sua revolta através de expressões. Eu ria.

A discussão terminou e cada um foi para o seu lado, exceto as pessoas indignadas. Estas ganharam algum assunto para o jantar. Assim como eu.

06 setembro 2010

"A Turba" - Parte XV

Vozes. Vozes. Vozes.

Hoje, o singular tem necessidade de, a todo tempo, ser o plural. Como se, mantido o estado inicial, fosse desaparecer. Quer dizer, pior ainda, tornar-se-ia insignificante.

Assim, praticamente prostitui-se. Não soma, diminui. E sorri.

Eu sou um pesadelo. Nós somos o paraíso.

E no Jardim do Éden todos são iguais.

- gulp!

19 agosto 2010

Ledo Engano - Part XIV

Ela veio em minha direção e, com uma confiança que parecia inabalável, começou a dizer palavras que, a cada frase, pareciam mais desconexas da realidade.

A todo o momento, ela buscava a confirmação, tanto minha como de si própria, para assim, continuar a falar. As palavras ganhavam mais espaço entre elas, como se quisessem desistir.

Já seu corpo se fechava, os braços não acompanhavam o raciocínio, sendo intermitentes nos movimentos, como se, por alguns instantes, ela se esquecesse de dedicar-lhes atenção.

Consenti com tudo o que ela dizia. Afinal, quem sou eu para negar a uma pessoa o direito de se enganar?

23 julho 2010

A Verdade - Parte XIII

Ela estava sentada em um banco do shopping. O redor dos seus olhos estava bem vermelho e a caixa de lenços ainda estava para fora na bolsa entreaberta. Estava claro que ela havia passado um bom tempo chorando.

Sentei-me ao seu lado, ela suspirou, como se aquela cena já fosse comum e, sem a menor paciência, lançou-me as seguintes palavras:

- O que você quer?

Seria difícil explicar que eu não queria nada. Mas, na verdade, ignorá-la naquele estado seria ainda mais complicado. Quando não sabemos o que fazer, é sinal de que não saberemos mentir. É melhor dizer a verdade:

- Simplesmente vi que você estava chorando e resolvi sentar ao seu lado.

- Mas eu já parei de chorar. Então, você já pode ir embora.

- Bem, mas você não está certa disso, pois teria guardado a caixa de lenços e ido passear bem longe daqui.

- (...)

- Vamos lá, o que houve?

- Ele foi grosso comigo. Precisava dizer que eu sou uma chata e que não me aguentava mais me ver? Ele é que é chato e insuportável!

- Todas as pessoas são insuportáveis, minha querida. As que não são, são apenas covardes ou falsas.

Enquanto ela virava-se para alcançar a caixa de lenços, eu achei melhor seguir o meu caminho.

04 julho 2010

O Sofá e o Controle Remoto - Parte XII

O sofá e o controle remoto são o trono e o cetro do homem moderno. Todo o resto é supérfluo.

Se as relações com os demais seres humanos não nos importam, então, não precisamos de mais ninguém, apenas do controle remoto, para, à nossa maneira, controlar a nossa televisão, que é, na verdade, onde as relações acontecem.

01 julho 2010

Leis Básicas da Convivência em Sociedade - Parte XI

- Olá!

- (...) Olá.

- Pode parecer estranho eu cumprimentá-la, mas, talvez, parecer um sujeito educado e simpático pudesse transformar a minha existência em algo menos miserável, concorda?

- Er...eu não sei o que dizer...

- Não me surpreende. Bem, se você não sabe o que dizer, é sinal de que a peguei de surpresa, certo? E, se você foi surpreendida, indica que você não espera que as pessoas cheguem até você e digam um simples "olá", certo?

(Nesse momento, ele dá um longo passo à frente e ela, com as pernas menores, um curto para trás).

- Er...gulp!

- (tom de voz mais estridente) Então, você calça essa porcaria de tênis todos os dias e ganha as ruas esperando que todos te ignorem, já que o seu único objetivo é desprezar todos que passem por você, exceto, claro!, que algum deles tenha alguma serventia para você. Não é isso, senhorita-da-calça-colorida?

- (os ombros encolhem-se) Não...

- Provavelmente, você está pensando em todos os pés indesculpados que pisou, as ocasiões que um "obrigado" ficou preso na garganta, os olhares não retribuídos...

- (as sobrancelhas encurtam a testa) Não...

- Negação, negação, negação. Você está certa.

- (...)

Ele se afasta e ao longe ela ainda é capaz de ouvir um “Olá!”.