Crônicas de um Homem Morto

08 fevereiro 2011

A carteira e o mundo - Parte XX

- Ao abrir a carteira, eu controlo as decisões. Se serei gentil ou educado, é uma decisão minha, portanto, o papel que eu irei interpretar a partir de agora, terá você como coadjuvante. E eu tenho certeza que você irá colaborar.

- Se é assim...

- E, de certa forma, eu só coloco em palavras o acordo tácito que existe. Mas, pensando bem, não é assim que funciona lá fora? Eu sairei e serei protagonista e coadjuvante, tudo vai depender de quem tiver...

- Vai demorar?

- Ei, já esqueceu o seu papel?

03 fevereiro 2011

Refletindo no Café - Parte XIX

Eu não gosto de café. Para falar a verdade, acredito que muitos aqui também. Eu poderia continuar, mas é melhor parar, obviedades são tediosas quando mostradas todas de uma vez.

Falando em tédio, as bocas forçosamente abertas e os dentes cuidadosamente expostos me cansam. Mas eu sigo apenas a observá-los.

O alívio a cada gole é um comercial sem câmeras. O aroma é percebido como um elixir.

- Droga.

05 janeiro 2011

Primeiro dia no Emprego - Parte XVIII

Eu paro e observo. Atentamente, tento descrever o que são aquelas pessoas atrás de mesas apertadas e olhares preocupados para as suas respectivas telas de computador.

Imagino, então, que daqui a alguns meses, as posições estarão trocadas. Eu estarei sentado e algum outro aparecerá. Provavelmente, no lugar de alguém que eu terei convivido dia após dia, compartilhado emoções, experiências e almoços.

Volto à realidade e pergunto onde eu assino.

31 outubro 2010

Explicando a Vida - Parte XVII

- É simples, minha cara: você vai errar, chorar, achar que está acertando, chorar, ter alguns sorrisos, chorar novamente e então, finalmente, falará para os mais novos que a vida foi boa. Depois, os olhará pela janela e suspirará, enquanto decide se remexe ou não nas velhas fotos escondidas no alto de algum armário.

- Mas...

- Não há mistério. Resta saber apenas se o saudosismo virá cedo ou na hora correta.

08 outubro 2010

A Discussão - Parte XVI

À distância, observava os dois discutindo. Impressionava a maneira pela qual os gestos dele pareciam reger as lágrimas dela. Ele, claro, não se importava. Muito menos eu.

O espetáculo continuava. Todos que passavam não hesitavam em dar uma olhada, alguns condenavam; outros, indignados, expressavam a sua revolta através de expressões. Eu ria.

A discussão terminou e cada um foi para o seu lado, exceto as pessoas indignadas. Estas ganharam algum assunto para o jantar. Assim como eu.

06 setembro 2010

"A Turba" - Parte XV

Vozes. Vozes. Vozes.

Hoje, o singular tem necessidade de, a todo tempo, ser o plural. Como se, mantido o estado inicial, fosse desaparecer. Quer dizer, pior ainda, tornar-se-ia insignificante.

Assim, praticamente prostitui-se. Não soma, diminui. E sorri.

Eu sou um pesadelo. Nós somos o paraíso.

E no Jardim do Éden todos são iguais.

- gulp!

19 agosto 2010

Ledo Engano - Part XIV

Ela veio em minha direção e, com uma confiança que parecia inabalável, começou a dizer palavras que, a cada frase, pareciam mais desconexas da realidade.

A todo o momento, ela buscava a confirmação, tanto minha como de si própria, para assim, continuar a falar. As palavras ganhavam mais espaço entre elas, como se quisessem desistir.

Já seu corpo se fechava, os braços não acompanhavam o raciocínio, sendo intermitentes nos movimentos, como se, por alguns instantes, ela se esquecesse de dedicar-lhes atenção.

Consenti com tudo o que ela dizia. Afinal, quem sou eu para negar a uma pessoa o direito de se enganar?

23 julho 2010

A Verdade - Parte XIII

Ela estava sentada em um banco do shopping. O redor dos seus olhos estava bem vermelho e a caixa de lenços ainda estava para fora na bolsa entreaberta. Estava claro que ela havia passado um bom tempo chorando.

Sentei-me ao seu lado, ela suspirou, como se aquela cena já fosse comum e, sem a menor paciência, lançou-me as seguintes palavras:

- O que você quer?

Seria difícil explicar que eu não queria nada. Mas, na verdade, ignorá-la naquele estado seria ainda mais complicado. Quando não sabemos o que fazer, é sinal de que não saberemos mentir. É melhor dizer a verdade:

- Simplesmente vi que você estava chorando e resolvi sentar ao seu lado.

- Mas eu já parei de chorar. Então, você já pode ir embora.

- Bem, mas você não está certa disso, pois teria guardado a caixa de lenços e ido passear bem longe daqui.

- (...)

- Vamos lá, o que houve?

- Ele foi grosso comigo. Precisava dizer que eu sou uma chata e que não me aguentava mais me ver? Ele é que é chato e insuportável!

- Todas as pessoas são insuportáveis, minha querida. As que não são, são apenas covardes ou falsas.

Enquanto ela virava-se para alcançar a caixa de lenços, eu achei melhor seguir o meu caminho.

04 julho 2010

O Sofá e o Controle Remoto - Parte XII

O sofá e o controle remoto são o trono e o cetro do homem moderno. Todo o resto é supérfluo.

Se as relações com os demais seres humanos não nos importam, então, não precisamos de mais ninguém, apenas do controle remoto, para, à nossa maneira, controlar a nossa televisão, que é, na verdade, onde as relações acontecem.

01 julho 2010

Leis Básicas da Convivência em Sociedade - Parte XI

- Olá!

- (...) Olá.

- Pode parecer estranho eu cumprimentá-la, mas, talvez, parecer um sujeito educado e simpático pudesse transformar a minha existência em algo menos miserável, concorda?

- Er...eu não sei o que dizer...

- Não me surpreende. Bem, se você não sabe o que dizer, é sinal de que a peguei de surpresa, certo? E, se você foi surpreendida, indica que você não espera que as pessoas cheguem até você e digam um simples "olá", certo?

(Nesse momento, ele dá um longo passo à frente e ela, com as pernas menores, um curto para trás).

- Er...gulp!

- (tom de voz mais estridente) Então, você calça essa porcaria de tênis todos os dias e ganha as ruas esperando que todos te ignorem, já que o seu único objetivo é desprezar todos que passem por você, exceto, claro!, que algum deles tenha alguma serventia para você. Não é isso, senhorita-da-calça-colorida?

- (os ombros encolhem-se) Não...

- Provavelmente, você está pensando em todos os pés indesculpados que pisou, as ocasiões que um "obrigado" ficou preso na garganta, os olhares não retribuídos...

- (as sobrancelhas encurtam a testa) Não...

- Negação, negação, negação. Você está certa.

- (...)

Ele se afasta e ao longe ela ainda é capaz de ouvir um “Olá!”.

01 julho 2008

Lição de Moral a um Matador de Aula - Parte X

- Sente-se aí, meu filho.

- Você deve ter uns 10 anos a mais do que eu. Corta esse papo.

- Nós somos mentirosos. A diferença é que eu sei parar.

- Como assim, mentiroso? Você me conheceu agora, como pode estar tão certo disso?

- Vai sentar ou não? São dez horas da manhã. Com essa blusa amarrotada, quer dizer que você já saiu de casa faz tempo e, a essa hora, deveria estar sentado em outro lugar, não nessa cadeira confortável do shopping que você finalmente faz uso.

- ???

- Sim. E é mentiroso pois vai mentir ou já mentiu para alguém. E o ar natural com o qual você veio até aqui não é coisa de amador. Uma limonada suíça sem açucar, por favor.

- ???

- E essa calça poída nos joelhos não combina em nada com os tênis caros dos seus pés. Alguém aqui não toma cuidado.

- ???

- Me passe o caderno de empregos, por favor.

26 abril 2008

Conversa com um Vizinho - Parte IX

Tão perto e tão longe. As camisas parecidas, todas sem listras, revelam um padrão. E, lógico, uma preocupação.
Não se pode jogar tudo na conta da coincidência.

Vamos, então, ao confronto:

- Oi.

(silêncio)

Só, então, percebo os fones. E ele, a minha presença.

Desconfiado, percebe que houve uma tentativa de diálogo. Sem-graça, mexe na camisa e diz:

- Falou comigo?

- Sim, falei. Apenas um "oi!"

- Oi.

Não preciso de mais nada. Entendi tudo. Ou melhor, eu havia entendido tudo errado. O que é liso, é chato, sem vida. Assim, fica fácil ignorar.

E, com isso, não é necessário se preocupar.

A vida é muito mais simples assim.

- Boa noite.

- (...)

Carta de Amor Mal-Escrita - Parte VIII

Desculpe-me, foi um engano
Na verdade, eu confundi as coisas
Não, isso não acontece todo ano

Eu vejo, conheço e enlouqueço
É sempre assim
E quando dou por mim,
Esqueço

Já procurei um remédio
E todos os médicos me disseram:
"Isso é tédio!"

Tédio? Não deve e não pode ser
Você quer me dizer
Que a causa de tudo é
Viver?

10 junho 2007

Compartilhando a Calçada - Parte VII

Lugares públicos são de todos. Como no equilíbrio de Nash - "se todos aceitam, é porque cada um aceita" -, a calçada, obviamente, não é propriedade privada. Entretanto, eu me comporto como se caminhasse ao som de "Final Countdown" e encontrasse um Luke Skywalker em cada esquina.

Aprendi uma coisa hoje: o concreto é quase beligerante. Para a ação, falta o ingrediente final: pessoas.

Há uma via e não há pessoas normais.
Há uma regra e não há policiais.
Há uma norma e não há quem a aplique mais.

E os tambores?

17 maio 2007

Com os Amigos no Bar - Parte VI

Agonia. Olho impacientemente o relógio e descubro que estou aqui há 48 minutos. Vou me orgulhar disso mais tarde. 48 minutos e não formulei três frases seguidas.

Na verdade, formulei vários tratados. Entretanto, caso tivesse pronunciado qualquer parte deles, teria a minha vida social totalmente comprometida. Esbocei um sorriso e tomei o caminho do banheiro entre sorrisos amarelos de gente que não se importava se eu estivesse aqui ou lá.

O espelho denuncia o meu horror. E a teoria do mínimo denominador comum aplicada aos seres humanos o explica.

E a fila do banheiro não pára de crescer.